Domingo, 18 de Abril de 2010

Da "fábrica de sonhos" às memórias cinéfilas

 

(Texto para a Folha de Sala do concerto pelo Quarteto de Ted Nash, Culturgest, 13.04.10)

 

Chegados sensivelmente a meio da programação de jazz deste ano que, na tradição desta casa, procurou, tanto quanto possível e em função de disponibilidades de vário tipo, seguir o princípio da inclusão e não da exclusão, bem como conciliar a presença de várias direcções estéticas hoje coabitando na cena do jazz internacional, o concerto que esta noite nos espera insere-se, mais do que qualquer outro, numa linha de evocação algo nostálgica  (mas não passadista)  da grande tradição do jazz.

 

Vários factores contribuem para tal.  Por um lado, um repertório que soa familiar e reconhecível, extravasando as fronteiras do próprio jazz e do cancioneiro popular que o alimentou durante anos e que é oriundo de uma das artes de massas mais populares de sempre: o cinema.  Por outro lado, a feliz conjugação da evocação das nossas próprias memórias cinéfilas, enquanto receptores, com a da expressão musical de um outro tipo de memórias, mais directamente relacionada com os bastidores dessa “fábrica de sonhos” que eram os estúdios de cinema e de gravação sonora, experimentadas por um dos principais protagonistas do concerto de hoje.

 

Com efeito, o saxofonista Ted Nash – com uma carreira já extensa desde que, ainda miúdo, frequentava os principais meios jazzísticos de Los Angeles, onde nasceu, até ao estatuto de um dos principais solistas da Lincoln Center Jazz Orchestra e de líder e co-responsável de vários e fecundos projectos musicais –  está numa posição particularmente privilegiada como veículo transmissor dessas memórias.

 

Filho do trombonista Dick Nash e sobrinho do saxofonista seu homónimo Ted Nash (ambos músicos de jazz de algum relevo e, em grande parte da sua actividade profissional, muito solicitados pelos grandes estúdios de gravação de Hollywood), este instrumentista e compositor altamente conceituado na cena nova-iorquina actual tinha por hábito acompanhar os seus familiares músicos no seu quotidiano profissional, desde cedo contactando com outros grandes nomes do jazz que funcionavam nessas orquestras de estúdio como músicos de estante especialmente eficazes, versáteis e talentosos.


Essa indispensável e estimulante experiência, a par do estudo e da prática desde tenra idade de vários instrumentos, permitiu-lhe aos 16 anos participar numa tournée ao Hawai como membro da orquestra de Lionel Hampton e de, com a mesma idade, passar numa audição para sax-alto lead na orquestra de Quincy Jones!  Nos anos seguintes, sucederam-se outras experiências enriquecedoras integrando as orquestras de Don Ellis, Louie Bellson ou Toshiko Akiyoshi, pouco depois constituindo o seu primeiro quinteto e arrancando em definitivo para uma carreira até hoje recheada de êxitos.

 

(Fotos do ensaio de sound check:  cortesia de Rosa Reis)

 

Percebe-se então que este Mancini Project que Ted Nash hoje traz até nós tenha sido por ele especialmente acarinhado, uma vez que nessa época de ouro situada entre os anos de 1960 a 1970 Henri Mancini foi um dos compositores para o cinema em cuja orquestra participaram não só seu pai e seu tio como o seu próprio professor de saxofone e clarinete Ethmer Roten e ainda outros grandes músicos de jazz da Costa Oeste, entre os quais os irmãos Conte e Pete Candoli (trompetes),  Larry Bunker ou Shelly Manne (bateristas)  e até o genial Art Pepper.

 

Não sendo propriamente um músico ou um compositor do domínio do jazz, este não era de forma alguma estranho a Mancini, ele que vinha de uma área transversalmente comunicante entre géneros, como a das grandes big bands, enquanto arranjador, por exemplo, para a orquestra de Glenn Miller em finais dos anos de 1940. E naturalmente que a corrente cool nascida com o jazz moderno, a par da sua expressão West Coast tão específica da região da Califórnia, lhe eram inteiramente familiares.

 

Mesmo assim, tendo em consideração estas relações mais ou menos directas mantidas com o mundo do jazz, não pode dizer-se que a música de Mancini tenha particularmente inspirado personalidades desta corrente na sua obra discográfica, sendo facilmente enumeráveis alguns dos que ao longo dos anos se interessaram por ela e a recriaram:  os saxofonistas Phil Woods e James Moody ou o vibrafonista Joe Locke e poucos mais.

 

Considerado um dos compositores mais importantes e prolíficos do cinema norte-americano, com cerca de duas centenas de bandas sonoras no seu activo, Henri Mancini não deve, a meu ver, ser apenas circunscrito à música para o cinema popular ou mais ou menos sofisticado e mundano, como a série Pink Panther (iniciada em 1963)  ou Breakfast at Tiffany’s (1961, também de Blake Edwards)  mas ainda como autor ligado a obras de maior fôlego na história do cinema, como a obra-prima Touch of Evil (Orson Welles, 1958)  ou ainda Charade (Stanley Donen, 1963)  e The Glass Menagerie (Paul Newman, 1987),  para apenas referir estes, ou mesmo a série policial televisiva Peter Gunn, famosa na passagem dos anos de 1960 para 1970 e que foi a primeira em que regularmente figurava em cena um quinteto de jazz.

 

É assim interessante e significativo que Ted Nash tenha escolhido, de um infinito repertório possível e de êxito seguro como é o de Mancini, alguns temas que não fazem necessariamente parte dos mais conhecidos e populares.  Rodeando-se para a edição discográfica deste Mancini Project (Palmetto, 2008)  de quatro músicos inteiramente identificados consigo  – Frank Kimbrough (piano),  Rufus Reid (contrabaixo)  e Matt Wilson (bateria)  –  Nash terá desta vez em palco, a seu lado, dois talentosos substitutos dos dois últimos:  o contrabaixista Jay Anderson e o baterista Ali Jackson.

 

Mas é pela especial ligação musical existente entre Ted Nash e Frank Kimbrough – eles próprios associados na fundação de um dos núcleos mais importantes e criativos do jazz nova-iorquino de hoje, o Jazz Composers Colective –  que muitos dos melhores momentos deste concerto porventura passarão, desde logo no excepcional dueto  (sax-tenor/piano)  que muito provavelmente nos dará a ouvir a atmosfera única e emocionante de Cheryl’s Theme, que pessoalmente me faz lembrar os magníficos duetos de Stan Getz com Kenny Barron.

 

Saxofonista de um estilo muito pessoal e identificável, Ted Nash insere-se aliás (consoante a natureza das peças tocadas)  na linha evocativa dos melhores continuadores dos grandes mestres, como o já citado Getz, Dexter ou Coltrane, embora desdobre a sua personalidade e marque o seu estilo em outros instrumentos que provavelmente tocará, como o clarinete, a flauta e o sax-soprano.

 

Entre os temas que muito possivelmente completarão o repertório desta noite, permito-me ainda chamar a atenção do espectador para o contraste entre a introdução em rubato e o vigoroso swing da exposição e resolução do tema e improvisações em Dreamsville;  o ambiente misterioso e shortereano de Night Visitor ou o modalismo de Experiment in Terror;  a delicada utilização da flauta em Soldier in The Rain;  as dedicatórias do próprio Mancini ao pai de Ted Nash (Something for Nash, do filme Blind Date)  ou ao seu tio  (A Quiet Happening, da série Peter Gunn)  ou, por último, as mudanças harmónicas e a naturalidade melódica de Breakfeast at Tiffany’s, tema que inevitavelmente associamos à fabulosa elegância de Audrey Hepburn na madrugada de Nova Iorque, com a sua longa boquilha e as suas luvas de veludo preto afagando um cálice de martini.

 

Irresistível!

 


 

Em tempo:

 

Aproveite já agora para ouvir  (como se fosse um bónus)  um concerto realizado pelo Quarteto de Ted Nash com o Mancini Project no Festival de Jazz de Detroit e apresentado no programa JazzSet (WBGO) de Dee Dee Bridgewater...

 


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 12:02
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